Sofá Universal » 2 588 312. E você?

Sofá Universal

Durante mais de seis horas, aqui da janela, vi centenas largas de lisboetas secarem uma bomba de gasolina, numa corrida ao petróleo como se Espanha tivesse invadido o Pais e amanhã Sines fosse tomada por uns tipos de Gijon. O tuga não reage ao facto, reage ao alarme. As bombas estão vazias mas, decerto, há centenas de carros com tanques cheios que só vão gastar esse combustível daqui a duas semanas.

Ora, sejamos lógicos: se daqui a duas semanas não houvesse pinga de Sem Chumbo e de Gasóleo nos postos de combustível - e já ninguém regateia o 1,5 que custa o litro -, então teriamos de ser nós a sair em fila e às centenas mas direitinhos a S. Bento, não à Repsol, e extrair o que há ainda de razoável no Governo.

Isto é: os tipos indigitados pelo Partido Socialista, votado por 2 588 312 de portugueses para assumir o poder, têm de resolver problemas e explicar à malta porque estão a empatar.

Os 2 588 312 que confiaram em José Sócrates e no seu PS devem exigir a estes socialistas que nunca lhes passe pela cabeça deixar o País sem pão, fruta, peixe, carne, gasolina, tabaco e vinho. Estes 2 588 312 de portugueses, que têm tanta culpa do estado das coisas como o engº José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, devem eles sim sair à rua e esgotar não a gasolina mas a capacidade de protesto contra aqueles em quem confiaram e que os trairam.  É que o Scolari nunca prometeu nada, não foi votado por 2.588.312 de portugueses e, agora, vai para o Chelsea com o dever cumprido: levou-nos a uma meia-final, a uma final e está a caminho de outro sucesso, comedido ou total.

Agora o sr. engº José de Sousa prometeu uma batelada de coisas (150 mil empregos, anulação do código laboral do Bagão Félix, Plano Tecnológico, etc.) e os 2.588.312 de portugueses que nele confiaram devem, pelo menos, pensar se ele cumpriu. E se, sendo indicado pelo PS, em que votaram, para ser PM, o sabe ser.

Era muito importante fixar isto: 2 588 312 portugueses são responsáveis pelo que passam os restantes 10 617 575 (portugueses e estrangeiros que cá vivem). Isto é, um quinto da população residente é responsável pelo que passa os outros quatro quintos.

Ora, ainda acha que a abstenção é opção? Isto é, ainda acha que, no meio desta crise filha da puta, com o petróleo a cento e croa, os cereais a subir, 200 mil pessoas na rua a protestar, camionistas passados a abrandar o País, lei laboral revista para pior, o Alegre no comício do Bloco, descida da natalidade - e da sua reforma... AInda acha que deve entregar outra vez o seu voto aos 2 588 312 que decidiram por si em 2005?

Ou aos cento e tal que chuparam aqui as bombas do Areeiro e das Olaias anda hoje, mesmo sem precisar de gasolina?

Hum?

2 588 312?

Hum?



3 Comments

1  ana borges

Os 2 milhões e tal não são responsáveis por nada meu caro!
Os responsáveis são os outros todos que se abstém e deixam os outros decidir por nós.
Enquanto quase metade dos votantes portugueses não votar, só porque não, ninguém se pode queixar das medidas governamentais.
Se vou ao cinema com um amigo e digo “ah! tanto me faz!, escolhe tu o filme” depois não me posso queixar daquilo que ele escolheu, não é?
Neste país, assim como em todo o mundo, cada um só tem o que merece!

Written on June 12, 2008 at 9:16 am

2  Frederico

E eu repito a minha ideia: Se houve 60 por por cento de abstenção, então que 60 por cento dos lugares de deputados no Parlamento fiquem vazios! E quem lá está, que se preocupe de verdade e mostre alternativas, que trabalhem. Senão, qualquer dia ainda lhes pedimos que tenham cartão magnético para justificar as horas e as pausas para tabaco, como é para o povo!

Written on June 12, 2008 at 1:18 pm

3  Perez Biltre

Caríssima Ana

Compreendo perfeitamente o seu ponto de vista, estamos a dizer o mesmo quando nos aborrecemos com os abstencionistas. Mas Portugal não aguenta ser mais o País do nacional porreirismo, em que “a culpa é de todos e a culpa não é de ninguém”.
Há tempos propus ao Francisco Louçã e ao João Soares, quando ainda tinham credibilidades médias, que fizessem aprovar uma lei simples: cada tuga podia pedir o seu voto de volta nas Juntas de Freguesia, dois anos após o acto eleitoral. Quando 80 por cento dos eleitores que votaram, de facto, o tivessem feito, o órgão eleito caia.

Sabe o que disseram? Que isso era por o poder na rua.

Ora, quando dois tipos da esquerda dizem que é mau o voto ser mais do que uma breve expressão de crença, estamos conversados.

Mas mantenho a minha: os quase três milhões que votaram no PS são responsáveis, porque abalizaram. E isso é responsabilidade. Decerto se lembra que em 1993 a gente andava de taxi, andava na rua, ia ao supermercado e não encontrava NENHUM português que tivesse votado Cavaco. Lembra-se? Esses, para mim, são pior que os abstencionistas. São os cobardolas que não dizem: “Votei em sicrano, enganei-me!”

Meu bom Frederico

A AR não são as cortes, os tipos não são fidalguia e os impostos não são fruto das árvores. Os deputados - e sabes disso - trabalham naquelas invisíveis comissões, que ocupam tempo. Mas deixar a coisa entregue às moscas é péssimo. Para as moscas.

Written on June 13, 2008 at 4:24 am

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